sexta-feira, 22 de maio de 2009

Continuando Le Goff

"... quando se vê que certas orientações da concepção da história, a meu ver, essenciais, não penetraram de fato o território da história: história-problema, a história aberta para as outras ciências sociais, a história que não se encerra na narrativa."

(in História Nova, pag. 8)

Entendo que "a história aberta para as outras ciências" é um processo que pode ser acelerado pelos meios digitais. A colaboração em rede proporcionada pela internet, aceleram os processos de apropriação do conhecimento. As análises em cima da "história-problema" podem ganhar uma análise mais ampla se forem discutidas e fóruns. A problematização de questões "micro" podem ajudar a dar um panorama mais amplo a cerca de fatos históricos antes ignorados.

É o caso da "História Marginal", de Jean-Claude Schimitt. Seu ensaio de mesmo título incluso em "História Nova" trata das minucias de uma parcela da sociedade que compõe o todo, mas, na maioria dos estudos históricos deixa de ter voz. Em tempos de internet, toda história está registra e é válida. Para o historiador, articular com outras ciências é um processo mais rico, embora mais demorado, mas que produz um resultado muito mais substancioso.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Próximos passos

Surgiram duas novas fontes para minha pesquisa: 

Manuel Castells e o seu "Sociedade em Rede" (idéia que surgiu em conversa com a Cris França, colega de equipe no LIDEC). 

Thomas Friedman e o best seller "O Mundo é Plano" (idéia que surgiu em conversa com a minha orientadora na última quarta-feira). 

A jornada é longa... 

Umberto Eco mandando a real

Uma pausa na iniciação científica (que vai de vento em popa) para ler Umberto Eco. Foi publicado no UOL

Sobre a efemeridade das mídias

Umberto Eco
No encerramento da Escola para Livreiros Umberto e Elisabetta Mauri, em Veneza, falamos, entre outras coisas, sobre a efemeridade dos suportes da informação. Foram suportes da informação escrita a estela egípcia, a tábua de argila, o papiro, o pergaminho e, evidentemente, o livro impresso. Este último, até agora, demonstrou que sobrevive bem por 500 anos, mas só quando se trata de livros feitos de papel de trapos. A partir de meados do século 19 passou-se ao papel de polpa de madeira, e parece que este tem uma vida máxima de 70 anos (com efeito, basta consultar jornais ou livros dos anos 1940 para ver como muitos deles se desfazem ao ser folheados). 

Portanto, há muito tempo se realizam congressos e se estudam meios diferentes para salvar todos os livros que abarrotam nossas bibliotecas: um dos que têm maior êxito (mas quase impossível de realizar para todos os livros existentes) é escanear todas as páginas e copiá-las para um suporte eletrônico.

Mas aqui surge outro problema: todos os suportes para a transmissão e conservação de informações, da foto ao filme cinematográfico, do disco à memória USB que usamos no computador, são mais perecíveis que o livro. Isso fica muito claro com alguns deles: nas velhas fitas cassete, pouco tempo depois a fita se enrolava toda, tentávamos desemaranhá-la enfiando um lápis no carretel, geralmente com resultado nulo; as fitas de vídeo perdem as cores e a definição com facilidade, e se as usarmos para estudar, rebobinando-as e avançando com frequência, danificam-se ainda mais cedo. 

Tivemos tempo suficiente para ver quanto podia durar um disco de vinil sem ficar riscado demais, mas não para verificar quanto dura um CD-ROM, que, saudado como a invenção que substituiria o livro, saiu rapidamente do mercado porque podíamos acessar online os mesmos conteúdos por um custo muito menor. Não sabemos quanto vai durar um filme em DVD, sabemos somente que às vezes começa a nos dar problemas quando o vemos muito. E igualmente não tivemos tempo material para experimentar quanto poderiam durar os discos flexíveis de computador: antes de podermos descobrir foram substituídos pelos CDs, e estes pelos discos regraváveis, e estes pelos "pen drives".

Com o desaparecimento dos diversos suportes também desapareceram os computadores capazes de lê-los (creio que ninguém mais tem em casa um computador com leitor de disco flexível), e se alguém não copiou no suporte sucessivo tudo o que tinha no anterior (e assim por diante, supostamente durante toda a vida, a cada dois ou três anos), o perdeu irremediavelmente (a menos que conserve no sótão uma dúzia de computadores obsoletos, um para cada suporte desaparecido).

Portanto, sabemos que todos os suportes mecânicos, elétricos e eletrônicos são rapidamente perecíveis, ou não sabemos quanto duram e provavelmente nunca chegaremos a saber. Enfim, basta um pico de tensão, um raio no jardim ou qualquer outro acontecimento muito mais banal para desmagnetizar uma memória. Se houvesse um apagão bastante longo não poderíamos usar nenhuma memória eletrônica.

Mesmo tendo gravado em meu computador todo o "Quixote", não o poderia ler à luz de uma vela, em uma rede, em um barco, na banheira, enquanto um livro me permite fazê-lo nas piores condições. E se o computador ou o e-book caírem do quinto andar estarei matematicamente seguro de que perdi tudo, enquanto se cair um livro no máximo se desencadernará completamente. 

Os suportes modernos parecem criados mais para a difusão da informação do que para sua conservação. O livro, por sua vez, foi o principal instrumento da difusão (pense no papel que desempenhou a Bíblia impressa na Reforma protestante), mas ao mesmo tempo também da conservação.

É possível que dentro de alguns séculos a única forma de ter notícias sobre o passado, quando todos os suportes eletrônicos tiverem sido desmagnetizados, continue sendo um belo incunábulo. E, dentre os livros modernos, os únicos sobreviventes serão os feitos de papel de alta qualidade, ou os feitos de papel livre de ácidos, que muitas editoras hoje oferecem.

Não sou um conservador reacionário. Em um disco rígido portátil de 250 gigabytes gravei as maiores obras-primas da literatura universal e da história da filosofia: é muito mais cômodo encontrar no disco rígido em poucos segundos uma frase de Dante ou da "Summa Theologica" do que levantar-se e ir buscar um volume pesado em estantes muito altas. Mas estou feliz porque esses livros continuam em minha biblioteca, uma garantia da memória para quando os instrumentos eletrônicos entrarem em pane.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ferramental do historiador

Le Goff diz:

"Acho em contrapartida que, sendo um ofício, a história deve forjar ferramentas, isto é, métodos, e submetê-los à reflexão e à discussão."

"... parece-me lamentável que alguns se erijam de início em juízes do método e, sem sequer terem uma formação em epistemologia..."

O trabalho de se forjar ferramentas para uso no ofício de historiador nunca foi um processo muito claro. Existe um debate historiográfico ainda hoje sobre quais são os métodos da ciência histórica. Quais são suas fórmulas?

Por não ser uma ciência exata como matemática ou física, fica difícil, mesmo dentro da academia, formular e definir que fórmulas são essas. Mais do que isso, buscar a validação delas dentro da comunidade de historiadores. Sinto falta desse debate.

Porém é preciso conhecimento epistemológico, que hoje virou praticamente artigo de luxo. Usar a epistemologia como ferramenta para se aprofundar na problematização da história possibilita o surgimento de reflexões menos superficiais e, por consequência muito mais ricas em resultados.

E aqui acrescento a potência que a internet pode oferecer para esse tipo de produção científica. Através de debates em fóruns, comunidades e pesquisas que se desenvolvam colaborativamente e de forma assíncrona, historiadores novos que estão espalhados podem produzir juntos e soltando versões beta de ferramentas para uso da comunidade de historiadores que através de suas ações e do próprio debate podem validar e melhorar essas ferramentas.

Uma crítica e uma constatação

Ao responder os críticos dos historiadores da nova história que os acusam de "não sair do marasmo da tradição dos Annales e de renegá-la, trocando a história total por uma história "'em migalhas"', Le Goff escreve na introdução da edição de 1988 de "História Nova":

A esse respeito, corre um mito: a nova história ter-se-ia apoderado da mídia e teria até obtido um quase monopólio da vulgarização histórica no livro, nas revistas, no rádio e na televisão. Essa lenda não resistiria a um estudo sério do mercado da história.

Esse é o primeiro momento em que vemos o autor citar as mídias durante o livro. Visto que esse texto foi escrito como prefácio a nova edição, logo uma atualização do texto publicado em 78, faz-se necessária uma atualização.

Passados 21 anos, vivemos um outro momento do termo "mídia". A internet se inseriu nesse contexto, provocando um fenômeno que ainda hoje em 2009 não está acabado mas está em andamento, chamado convergência digital. Rádio, tv, mídia impressa (jornais, revistas, livros), todos congregados num único veículo digital (sem deixarem de existir em seus formatos originais).

Observando-se somente essa informação, ainda falta um longo caminho para que a nova história se aproprie desses meios. O historiador ainda trabalho com a tecnologia da mesma forma que trabalhava 30 anos atrás, conforme uma postagem que ainda colocarei aqui demonstrará. O novo historiador ainda não se apropriou do conceito chave das novas tic´s. Porém, as pessoas já produzem história através dessa mídia dando origem ao que pode ser uma nova forma de produção histórica e pode exigir do historiador um olhar metodológico científico diferente do que ele possui/usa hoje.

Foco

Vou me dedicar durante alguns dias ao livro "História Nova", coletânea de textos organizada por Jacques Le Goff. Colocarei aqui alguns destaques comentados.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Le Goff II

"A história já tem a sorte ou a infelicidade (única de todas as ciências?) de poder ser feita convenientemente pelos amadores."

A história tem a sorte. Na minha pesquisa quero e vou abordar o que esses amadores estão fazendo. No futuro o papel do historiador "profissional" tende a ser facilmente considerado irrelevante num futuro muito próximo. 

Que mais amadores sejam estimulados.